7 de julho de 2011

São tantos, humilhados, perecem os teus
Onipresente? Onde estás o teu Deus?
Tão poderoso e nada pode fazer
Seria mera opção deixá-los perecer?

Teus seguidores vivem de promessas
Entorpecidos, se esquecem do agora
Se existisses, diria: te apressas
Pois, eles não perdoarão tua demora

Dizem que teu mundo é perfeito
Pena que é apenas teu, particular
Se pudesse, daria um jeito
Lhe mostraria a pobreza de cada lar

1 de abril de 2011

at my most beautiful

Ele me olha com olhos de criança admirada. Eu enrubesço, me incomodo.
Ele cuida de mim e promete que vai me livrar de toda dor, que vai arrancá-la "como quem arranca um piolho". Eu penso que é um rapaz pretensioso, e me enterneço.
Ele me abraça e eu sinto vontade de ficar perto dele até que acabe esse inverno que tem sido a minha vida. Para que a gente possa correr até o sol... juntos.

Trata-se de um anjo. Meu salvador.

13 de março de 2011

“Amar apenas a si: é Eros, o amor que toma ou que devora, e Eros é um deus egoísta. Ou amar o outro, verdadeiramente, como um sujeito, como uma pessoa, respeitá-lo, defendê-lo, ainda que contra o desejo que se tem dele: é Philia ou Agapé.” (A. C.-S.)

Belos trechos de “Grande Sertão: Veredas”, João Guimarães Rosa

Eis os trechos escolhidos a dedo por uma grande amiga, Elaine:

“O que mais penso, texto e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura.”

“Toda saudade é uma espécie de velhice”.

“O amor, já de si, é algum arrependimento”.

“Dia da gente desexistir é um certo decreto”.

“... Deus não há. Estremeço. Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa encantoada – erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços. Dor não dói até em criancinhas e bichos, e nos doidos – não dói sem precisar de se ter razão nem conhecimento? E as pessoas não nascem sempre? Ah, medo tenho não é de ver morte, mas de ver nascimento. Medo mistério. O senhor não vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver – a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. O inferno é um sem-fim que nem não se pode ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo.”

“A quanta coisa limpa verdadeira uma pessoa de alta instrução não concebe! Aí podem encher este mundo de outros movimentos, sem os erros e volteios da vida em sua lerdeza de sarrafaçar. A vida disfarça?”

“Comandante é preciso, para aliviar os aflitos, para salvar a idéia da gente de perturbações desconformes”.

“Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!”

“A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data.”

“Quem desconfia, fica sábio”

“Deus vem, guia a gente por uma légua, depois larga. Então, tudo resta pior do que era antes. Esta vida é de cabeça-para-baixo, ninguém pode medir suas perdas e colheitas”.

“Acho que sempre desgostei de criaturas que com pouco e fácil se contentam”.

“Tristeza perto de pessoa amiga afraca”

“Desespero quieto às vezes é o melhor remédio que há”

“ ‘A vida da gente faz sete voltas’ – se diz. A vida nem é da gente!”

“Toda alegria, no mesmo do momento, abre saudade”

“Amizade dada é amor”

“o mais difícil não é um ser bom e proceder honesto; dificultoso, mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até no rabo da palavra”.

“Viver perto das pessoas é sempre dificultoso, na face dos olhos”

“Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é.”

“De mim, toda mentira aceito. O senhor não é igual? Nós todos.”

“Pudesse tirar de si esse medo-de-errar, a gente estava salva”

“Acho que, às vezes, é até com ajuda do ódio que se tem a uma pessoa que o amor tido a outra aumenta mais forte. Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe.”

“Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado”

“A vida da gente vai em erros, como um relato sem pés nem cabeça, por falta de sisudez e alegria. Vida devia de ser como na sala do teatro, cada um inteiro fazendo com forte gosto seu papel, desempenho”.

“Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado. Eh, bê. Mas, para o escriturado da vida, o julgar não se dispensa; carece? Só que uns peixes tem, que nadam rio-arriba, da barra às cabeceiras. Lei é lei? Lôas! Quem julga, já morreu. Viver é muito perigoso, mesmo”.

“Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago”.

“Ah, meu senhor! – como se o obedecer do amor não fosse sempre ao contrário”.

“Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”.

“Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total”.

“Ah, para o prazer e para ser feliz, é que é preciso a gente saber tudo, formar a alma, na consciência; para penar, não se carece.”

“Todo caminho da gente é resvaloso. Mas, também, cair não prejudica demais – a gente levanta, a gente sobe, a gente volta! Deus resvala?”

“Ah, o que eu não entendo, isso é que é capaz de me matar”.

Embora tantos passassem por aquela estação do metrô, desconfio que o músico não tenha visto nenhum rosto, habituado que estava a olhar - por medo, vergonha, ou cansaço - apenas para baixo.

Seu cabelo estava todo desgrenhado, o chapéu, sobre o chão e o olhar, atento às moedas que, vez ou outra, chegavam de mãos desconhecidas.

Já sentado, quando uma sombra formou-se sobre seu corpo, rapidamente, ele ergueu o olhar. Esperando uma resposta do homem que havia se postado à sua frente, este apenas olhou para o violino.

Embora estivesse cansado, o músico não iria perder a oportunidade de ganhar mais algum dinheiro, principalmente, porque imaginava - pela vestimenta do rapaz - que, desta vez, ao invés de moedas, poderia receber uma nota de cinco ou dez reais.

Assim que começou a tocar, o músico notou que aquele homem não queria apenas ouvir uma bela melodia, nem, tampouco, ajudá-lo, doando-lhe algum valor.

Para que aquele artista anônimo deixasse a melancolia de lado e passasse a observar algo além dos pés dos quem vagueavam por aquela estação, o sujeito que se pôs a ouví-lo, apenas lhe olhou nos olhos. De modo instintivo, o violinista, por poucos segundos, correspondeu o olhar.

O olhar daquele rapaz não apenas tirava o músico da invisibilidade, há tanto tempo, lhe imposta pela indiferença alheia. Aquele olhar também não era somente para lhe dar atenção, ou demonstrar que ele era capaz de merecê-la, independentemente de exercer seu dom de tocar.

O que, de fato, abalou o músico foi que o rapaz, ao olhar-lhe nos olhos, tocou sua alma, fez com que ele próprio deixasse de se medir pelo valor das moedas depositadas em seu chapéu.

Não vi se eles se despediram, se chegaram a se abraçar, ou se, ao menos, deram um aperto de mãos. Quando fui embora, o violinista tocava olhando nos olhos dele, com um sorriso tão bonito quanto a lágrima que caia dos seus olhos.

27 de fevereiro de 2011

Apenas mais um

Voltava para casa sábado a noite me valendo dos serviços da CPTM quando encontrei um dos muitos amigos de quando era criança, logo fui cumprimentá-lo e conversar sobre os caminhos da vida.

Até onde eu sabia, era homossexual e dependente químico, um rapaz inteligente, lia livros e mais livros e tinha um bom coração. Disse-me que estava se tratando com um psicólogo, pensei logo que foi uma acertada escolha, porque agora ele poderia melhorar sua situação de vida.

Conversa vai, conversa vem, falamos das novidades e do preconceito sofrido pelos homossexuais, tanto pela família quanto, sabemos todos, pela igreja, comentei da luta do PSOL a favor dos homossexuais e dos movimentos sociais em prol da defesa deles. Em determinado momento, tocamos em dois pontos cruciais, fundamentais e que afetam a alma de qualquer um, primeiro o rapaz me disse que queria que a vida dele não tivesse sido daquele jeito (drogas, preconceito e homossexualidade), segundo que sente falta de ter sido excluído por sua família, de não ter o apoio dos pais em sua vida. Pura discriminação, presente em sua casa e incentivada pela igreja e pela sociedade, um sistema destruidor de mentes que só aceita o que está dentro da forma dos estereótipos.

Voltei para casa pensando no que foi dito, que podemos fazer nesse mundo perdido?

Lutar.

O estrupo do estupro

Estrupo não é mais palavra estranha aos nossos dicionários, a Academia Brasileira de Letras, que tem como membros o José Sarney e o Paulo Coelho, inclusive o falecido Roberto Marinho, aceitou a variação linguística e agora as pessoas ditas cultas podem escolher qual forma usarão.

Vale pensar que a língua é instrumento necessário para uma melhor comunicação, entendendo-se o que se diz está bom, é banal o preconceito quando se escutam palavras como “fragrante”, “vrido”, e outras variações, que decorrem da carência educacional da maior parcela da população, fazendo com que a língua se torne um poder elitizado gerador de ainda mais preconceitos.

Aqui deixo apenas: a língua deve ser usada como meio de aproximação de pessoas, não de discriminação.